Questões conexas com um grande tema:
sucesso na criação e seleção

Sumário.

1. Criação e seleção;

2. Força genética;

3. Variação de fenótipo conforme a idade.;

4. Anomalias estruturais ocasionais;

5. Conclusão.

 

1. Criação e seleção

Embora já tenha abordado o assunto em texto anterior, onde declinei várias perguntas e indagações que poderiam ter sido trabalhadas pelo grupo, creio que nunca é demais insistir no assunto – ainda que de forma um pouco diferente -, esperando que as questões mais complexas e que requeiram maior experiência de criação possam ser, senão resolvidas, ao menos debatidas.

Lembro que anteriormente citei certas alegações do proprietário do Canil Das Minas Gerais, onde ele afirmava basicamente que "... já tive animais de excelente temperamento e fenótipo, os quais, infelizmente não se perpetuavam....". Concluindo, a referida pessoa entendia que a saída para o problema era a seleção através da consagüinidade.

Lembro-me de que, na época, houve algumas respostas um tanto evasivas a respeito do assunto..., tendo sido dito que não era caso de preocupação, pois havia excelentes Filas no Brasil, na Europa, e no mundo! Existem alguns animais excelentes, sim, todos concordamos com tal afirmativa. Mas, considerando o tempo, a quantidades das pessoas envolvidas, e o esforço concentrado na criação e seleção de Filas, nos últimos 30 anos, será que a situação não poderia ser um pouco melhor?

Na época, ainda, aproveitando troca de e-mails com um antigo criador e participante (embora não ativo) do grupo [participante, também, do Portal do Fila], quis saber a opinião dele a respeito do assunto (dificuldades na obtenção de excelentes Filas, através de cruzamentos selecionados). A resposta que obtive, algo singela, descolocada e até mesmo impertinente (data venia), foi que "de um Pelé não sai, necessariamente, um ou mais Pelezinhos..."!

Bem sabemos que vários criadores, alguns do grupo, por sinal, têm apostado na (e utilizado a) consangüinidade na criação e seleção do Fila, sendo que alguns tiveram mais sucesso e outros não foram tão felizes.

Pelo pouco que sei a respeito do tema, os cruzamentos consangüíneos, de fato, perpetuam qualidades, mas também preservam (e criam), em certos casos, indesejáveis defeitos (redução do tamanho médio, p. ex).... O desafio é fazer com que tais defeitos desapareçam ou, no mínimo, sejam atenuados.

Como as boas intenções, a experiência pessoal de cada criador, o amor e a dedicação à raça nem sempre funcionam a contento, trazendo resultados satisfatórios, como a prática já demonstrou, talvez seja a hora, conforme foi mencionado pelo Aníbal (Canil Filas de Fazenda), de se empregarem técnicas mais apuradas, sofisticadas, científicas, enfim, no processo de seleção do Fila, visando à obtenção de animais com homogeneidade o mais possível próxima do padrão!

Talvez, voltando a uma questão abordada por um artigo do Raimundo, um dos problemas tenha sido a criação muito fechada de algumas pessoas.

Só para dar um exemplo: perguntei uma vez ao Dr. Iliano Pinto Ribeiro porque ele não havia efetuado uma espécie de "intercâmbio" com os cães do Canil Ibituruna, aproveitando grandes possibilidades (em cruzamentos variados, sucessivos, repetidos) de exemplares como Leãozinho, Timbó, Elba, Elfo, Júpiter, Oscar, kalil, Fada, Fábula, etc, etc. Respondeu-me apenas, de forma algo distante e insuficiente, que "... o Paulo Angotti queria levar o Leãozinho para lá e efetuar alguns cruzamentos...".

Claro que outros fatores também influenciam o sucesso e o fracasso em qualquer empreendimento, até mesmo o fator sorte (?).... Parece que alguns criadores não têm problemas (ou conseguem resolvê-los depressa) de doenças em seu plantel... O tal do prolapso, p. ex., tem impedido que fêmeas com grande potencial contribuam para o aperfeiçoamento da raça.

 

2. Força genética

Aqui, aproveitando o texto do Raimundo (Canil Gameleira) sobre o santuário do Zebu e a resposta do Aníbal, quero (como já pretendia há um certo tempo) traçar um certo comparativo (paralelismo, na forma mencionada pelo Aníbal) entre a criação e seleção do Fila e a dos bovinos, especificamente do Zebu (Bos Indicus).

Inicialmente, quero ressaltar que meu conhecimento sobre o tema criação de bovinos (Zebu em especial) é superficial e resultado de simples leituras e um pouco de observação de fatos concretos. Embora meu pai tenha sido proprietário rural durante grande parte de sua vida, nunca teve a preocupação de criar raças puras, menos ainda deu valor à (e/ou tomou conhecimento da) seleção genética.

Pois bem. A leitura e a observação de alguns fatos relacionados à criação do Zebu demonstram, mais uma vez, que a seleção genética não é tão simples assim, que a utilização de ótimos e consagrados reprodutores nem sempre dá os resultados excepcionais inicialmente esperados.

Se tal fato ocorre com os bovinos, onde a seleção genética (através do emprego de sofisticadas e dispendiosas técnicas de seleção e reprodução) é infinitamente superior à dos cães, ficamos um pouco consolados ao constatar os problemas anteriormente referidos e relativos à criação e seleção do Fila...

Existe um certo ditado no sentido de que "os maiores progressos são alcançados na guerra"! No caso da criação de animais, a guerra comercial é quem determina os maiores esforços e estudos na busca de correção de defeitos e preservação (até aumento) de qualidades! Assim, como o apelo comercial dos bovinos é (sempre foi) bem maior do que o dos cães, a seleção genética daqueles sempre foi superior à destes!

Voltando ao assunto utilização de reprodutores de elite, sabe-se que aqueles exemplares de excepcionais atributos físicos e comprovada força genética, tendo sido largamente utilizados na reprodução, proporcionaram grandes resultados.

Porém, parece que chega um momento em que o nível de qualidade estaciona em um determinado patamar, e não mais se alcançam resultados superiores almejados.

E não é só. No caso do Zebu, ante o emprego das técnicas e recursos antes mencionados, a enorme coleta, e proporcional venda, de sêmen dos reprodutores tidos por extraordinários, foram obtidos (salvo engano) poucos produtos considerados bem acima da média e que ficam como referência no passar dos anos e das gerações.

No que se refere ao Nelore, confirmando inferência de leitura efetuada em revistas especializadas, "Estudo conduzido por Magnabosco et all (1997) mostra a existência de seis linhagens predominantes na população Nelore atual... Os seis genearcas apontados como grandes formadores do plantel atual da raça são: Karvadi, Taj Mahal, Kurupathy, Golias, Godhavari e Rastã..."

Todos esses touros vieram com a última grande importação, ocorrida nos anos de 1960/62 e, dentre eles e acima de todos, destaca-se Karvadi – sendo via de regra considerado o maior raçador.

A utilização constante do sêmen desses consagrados touros, em vacas de elite, resultou em uma enorme descendência respectiva, pelo Brasil afora. Mas, conforme o que é noticiado nas publicações especializadas, é bem reduzido o número dos filhos, netos, etc - de referidos genecarcas – que tenham alcançado fama próxima de seus festejados ancestrais, como por exemplo Chummak, Dumu, Evaru, e alguns outros menos famosos.

Vou citar um exemplo por mim vivenciado.

- Na cidade onde passei a maior parte de minha vida (Paranavaí, noroeste do Paraná), existe um pecuarista (atual prefeito) de nome Deusdete Ferreira de Cerqueira, apelidado o "bom baiano". Referida pessoa sempre criou Zebu, sendo que, nos anos setenta, possuía plantéis de Nelore, Guzerá e Indubrasil. Tinha, representando cada uma dessas raças, um reprodutor de altíssimo padrão, denominados respectivamente "Babú Ingrato", "Parev Medhi" e "Reno".

- Este último, por sinal, foi vencedor naquele que é considerado o evento máximo do Zebu no Brasil: a exposição de Uberaba-MG (como nota, informo que, logo depois, da consagração em Uberaba, o citado touro "Reno" faleceu em um acidente, deixando o proprietário inconsolável...).

- Mesmo utilizando tais touros em vacas altamente selecionadas, o referido senhor nunca conseguiu um filho à altura dos padreadores principais. No caso específico do "Reno", o máximo que o sr. Deusdete obteve foi um touro chamado "Danúbio", o qual, porém, sempre ficou distante da qualidade do pai.

Em meados da década de setenta, parece que a criação e seleção do Nelore haviam chegado a um limite de qualidade, e nada era conseguido de excepcional, até que, em um cruzamento mais ou menos despretensioso, surgiu um exemplar que seria considerado um marco, um "divisor de águas", na criação atual da raça: Gim de Garça.

Digo despretensioso porque, se, de um lado, foi utilizado sangue de Karvadi (através do sêmen de seu filho Dumu), utilizou-se de outro lado, como matriz, uma vaca de origem baiana, produto de linhagem menos conhecida e menos famosa...

Leiamos as preciosas informações declinadas pelo proprietário do animal:

"... Jaiminho (Jaime dos Santos Miranda) conta que seu pai decidiu trabalhar com a linhagem S.Paulo/Minas/Paraná de Nelore. Sua política inicial era comprar matrizes velhas, a ponto de descarte, nos plantéis VR, Garcia Cid e Rubico de Carvalho... para fazer com as crias uma base genética. Um dia, no entanto, teve a intuição de "mesclar" o gado, saindo da linha fechada S.Paulo/Minas/Paraná. Isso porque ficara sabendo que na Bahia havia também muito bom Nelore. Comprou então 25 novilhas-cabeceira do criador baiano Tourinho de Abreu (sangue OM) e aplicou nelas sêmen de "Dumu", filho de "Karvadi" (este já morto). A mescla VR com OM resultou em bons produtos, mas nada expecionais. Um deles, porém, foi um espanto: este seria o "Gim de Garça".
Gim de Garça nasceu tão destacado, tão bonito e tão raçudo que o capataz Benedito Ferreira, seu Bê, saiu à procura de seu Jaime para o patrão ver com os próprios olhos.
- Meu pai largou tudo e foi olhar o bezerro. Levou o amigo, Ricardo Barros, que chamava "Jim das Selvas", porque ele morava num bosque.
Os dois ficaram impressionados com o bezerro e seu Jaime resolveu ali homenagear o amigo, pondo no animal seu apelido. Só que o Jim, de Jim das Selvas, acabou escrito com G, porque era a letra do ano na fazenda...... E o sobrenome "de Garça" é para homenagear a cidade.
Gim de Garça se impôs desde o começo e, com 2 anos, já estava numa central de inseminação. Produziu sêmen durante 16 anos e morreu, aos 20,...." (reportagem publicada na revista Globo Rural, ano 11, nº 139, maio de 1997).

 

3. Variação de fenótipo conforme a idade

Impressionante (e emocionante) a história do touro Ludy de Garça (filho mais famoso do Gim de Garça e que, mais ainda que seu pai, mudou a história do Nelore e a vida de seus proprietários), porquanto ele, ao nascer e durante certa fase de sua vida, foi considerado quase um "aleijão", tantos eram os defeitos de estrutura (considerando-se o padrão da raça) que possuía.

Na mesma reportagem acima mencionada, observamos os seguintes comentários:

"Em outubro de 1985, o touro "Ludy de Garça" apareceu na capa da edição n° 01 de Globo Rural. Foi uma escolha de risco, pois era um reprodutor derrotado na Expozebu, em Uberaba, MG. Porém, ao nascerem seus filhos, viu-se que a raça Nelore tinha encontrado o seu maior raçador no Brasil.
.....

Afirmo com segurança: a história do Nelore no Brasil tem duas fases. Antes e depois do Ludy (Marcos Labury, zootecnista formado em Viçosa-MG).
....
No caso do Ludy, ... alguns fatos falam por si. Recorde de peso ( 1.129 quilos na Exposição de Uberaba, em 1985... Alguns anos depois, um filho seu, Ghulah, alcançou 1.308 quilos) ... Recorde de sêmen ... Recorde de preço (do sêmen) ... Recorde no raking – É o único touro duas vezes medalha de ouro no "Ranking Nacional do Nelore"... Recorde Genético/USP... Recorde em Maternal ...
O zootecnista Marcos Labury diz que a performance de Ludy é tão excepcional que dificilmente será igualada por outro reprodutor, mesmo porque, com os avanços da genética, tudo agora se passa rapidamente, de tal modo que o filho, hoje, tem obrigação de ser melhor do que o pai, e deve superá-lo..."

Ludy que, após a fama merecida, foi considerado pelos proprietários como "Um regalo de Deus", quase foi descartado e vendido como um tourinho comum.

Leiamos os fatos impressionantes.

"... A mesma "tática" que resultou no "Gim de Garça foi usada no Ludy. Sêmen do Gim em cima de uma vaca de sangue baiano. "Homessa".
- Só que a história deu diferente: quando Ludy nasceu teve gente que deu risada. Era um bicho pernudo, cabeça grande, tanjão, meio cambado. Parecia até que tinha defeito de formação.
Jaiminho conta que por pouco Ludy de Garça não foi vendido aos 2 anos, como um tourinho comum .....
- Quem bateu o pé para não vender foi o seu "Bê", o mesmo peão que chamou meu pai para ver quando nasceu o Gim.
Ludy tinha o cupim miúdo, para frente, meio fora do lugar: não estava bem em cima da paleta. O povo diz: "cupim de esguerço". Continuava cabeçudo, e com o chanfro meio torto. Uma pequena mancha branco-rosada na barbela arriscava dar desqualificação, por falta de pigmento. Mas, atrás de todos esses "defeitos", lá vinha aquela montanha de músculos e ossos, com um brilho uma luz fora do comum.
... Seu Jaime pôs confiança em seu Bê e Ludy foi mantido. Quando deu 84, soou a "hora da verdade": a exposição de Uberaba. Jaiminho relembra:

- Aos 4 anos, ludy alcançara o seu esplendor. Seu Bê tinha razão: o cupim se definira, no lugar certo. Com a saída dos chifres, ... isso contribuiu para "secar" a cabeça. Só um "problema" continuava: um afundamento no canal lacrimal de um lado da cara, fazia com que parecesse de chanfro torto.
... Quando chega a Uberaba, vem junto com ele a notícia de filhos excepcionais. E chega também a informação da balança: 1.129 quilos, recorde na exposição. O zunzum em Uberaba, antes do julgamento, era de que o boi de Garça seria fatalmente o Grande Campeão.
... No julgamento, uma surpresa: Ludy foi derrotado por Hasur da Sabiá, um boi de muita raça mas miúdo. O juiz se pegara no "chanfro torto" para tirar a medalha de Ludy...."

Para comparar e concluir os fatos históricos relativos a Ludy: viveu dezessete anos (faleceu pouco antes de ser publicada a referida reportagem); seu pai, Gim, viveu 20 anos; nos quesitos relativos ao potencial genético, recebeu 05 (cinco) notas dez (10) – relativamente a estrutura óssea, comprimento corporal, altura, perímetro torácico e musculatura; sendo que seu pai recebeu apenas duas notas dez (10) - comprimento corporal e perímetro torácico.

No caso do Fila, qual a idade ideal para saber se o filhote será, ou não, um adulto possuidor de ótimos fenótipo e temperamento .

Abordando a questão de variação do fenótipo (observação de defeitos) conforme a idade, posso relatar dois casos.

a. Existe uma fotografia conhecida de um cão (não revelarei o nome do animal e/ou do canil, por questão de ética), onde vemos que o animal, tendo na época em torno de 03 anos de idade, embora tenha bonita cabeça e seja, no geral bem proporcionado, apresenta uma figura quadrada, defeito que, para alguns, seria sinônimo de mestiçagem... O Dr. Iliano mostrou-me fotografias que tirou desse animal, quando este tinha já estava com idade mais avançada, fazendo o seguinte comentário: "É um dos Filas mais bonitos que já vi...!". Ao ser por mim indagado sobre o fato de o mesmo animal, em outra foto, apresentar figura quadrada, respondeu: "Alguns Filas somente apresentam fenótipo correto e definitivo por volta dos cinco, seis anos...".

b. Opinião manifestada, em conhecida publicação especializada, por um criador "não cafibento":

"... Já encontrei cães que, desprezados por mim, transformados em adultos eram simplesmente maravilhosos, além de ótimos reprodutores. Se você se guiar apenas pela beleza física, muitas vezes poderá estar julgando mal um exemplar que, apesar de não ter atingido a plenitude que pede o padrão, traz consigo uma carga genética ótima e chances de se tornar um reprodutor invejável. Saber discernir qual o melhor exemplar é uma coisa difícil....".

4. Anomalias estruturais ocasionais

O amigo Gerson R. Junqueira de Barros (Canil Serra de Itanhandu) contou-me o seguinte fato. Em seu canil nasceram (se a memória não engana quanto ao número) dois filhotes (ninhadas e épocas diferentes) com o mesmo e estranho problema: durante os primeiros dias, os filhotinhos pareciam ser aleijados, já que ficavam no chão como filhotes de jacaré (com as quatro patas bem abertas e a linha de baixo totalmente no chão) ..."! Mas, com o decorrer do tempo (dias/meses), foram melhorando, assumindo postura normal, e o tal defeito desapareceu totalmente. Para ilustrar o fato, contou-me ele também que um dos referidos filhotes é, simplesmente, o Herói da Serra de Itanhandu (Herói x Betânia) – belo e massudo Fila que vive e faz sucesso na Europa!!!

Alguém do grupo saberia de casos semelhantes...?


5. Conclusão

O sucesso na criação do nosso Fila, o que também ocorre com bovinos altamente selecionados como o Zebu, depende da conjugação de vários fatores – entendimento este a ser analisado (e completado) por outros mais entendidos e mais experientes.

Nesta altura, acho conveniente destacar e transcrever o 4° (quarto) mandamento do CAFIB: "Todos os criadores de Fila devem lutar para preservar as três principais características da raça: seu fenótipo, seu temperamento e sua psicologia".

Em pertinência, e voltando à questão de paralelismo com o zebu, vejamos as considerações de uma autoridade brasileira no assunto (Zebu) sobre os problemas (da época) da criação do Bos Indicus em seu País de origem (Índia):

"...A pureza das raças indianas estará seriamente comprometida, em conseqüência do programa nacional de cruzamento das raças Zebuínas com as taurinas, especialmente a Jersey e a Holandesa.
....
Os melhores representantes das raças indianas que pudemos observar nos pareceram inferiores aos bons animais que comparecem, às dezenas, em nossas exposições regionais e de âmbito nacional. Os conjuntos são, normalmente, poucos homogêneos. Não vimos nenhum indivíduo que pudesse ser considerado excelente. A exceção, talvez, seja a raça Ongole (Nelore)...
....
Não se percebe nos técnicos hindus e nos encarregados dos estabelecimentos, públicos e particulares, maior interesse pelas raças Indianas. Nas entrevistas e palestras o assunto é sempre dirigido para a questão de animais importados e as vantagens dos produtos resultantes de cruzamentos, em relação ao gado nativo, no tocante à produtividade. Esquecem-se de que os animais cruzados estão recebendo cuidados e tratos especiais que jamais encontrarão nos campos e nas "villages", ...Alguns veterinários já admitem o surgimento de problemas de ordem sanitária, à medida que se introduz o sangue Europeu e aumenta sua porcentagem.

Aos técnicos e administradores indianos manifestamos, com toda a franqueza, o nosso ponto de vista: o futuro das raças Zebuínas da Índia está seriamente comprometido. Não duvidamos de que, dentro de 10 a 20 anos, o Brasil estará exportando sêmen de diversas raças Zebuínas, para a restauração dos rebanhos da Índia. Muitas das raças menos definidas ou pouco numerosas já desapareceram; pelo menos não identificamos os seus representantes, nem souberam nos informar onde poderiam ser encontrados." -sublinhei- (in "O Zebu: Na Índia, no Brasil em o mundo" – Alberto Alves Santiago – Edição do Instituto Campineiro de Ensino Agrícola – 1986) .


Para fechar o texto, uma "anedótica historieta" familiar.

A historieta relaciona-se com o Bos Indicus (Zebu). Sabemos que, até hoje em dia, existem pessoas que pensam ser o Zebu uma raça, e não uma das espécies do gênero Bovino. Talvez por causa dos primeiros tempos, quando havia em certos locais do País forte discriminação contra o Zebu (criticava-se o Zebu, por ser pernalta, ter cupim, barbela, orelha grande, etc), algumas dessas referidas pessoas ainda têm o Zebu como uma raça (inferior) de bovinos...

Dos 17 (dezessete!) filhos que meus pais tiveram, um deles (Jorge) sempre viveu no interior e no meio rural. Tendo um mínimo de alfabetização, compensa eventuais carências culturais com muita experiência de vida e uma simplicidade ingênua que, em certos momentos, chega a cativar.
Pelo que me lembro, e coincidentemente, esse referido irmão (Jorge) foi o primeiro a mencionar, em nossa família, a existência do Fila como raça de cães. O fato curioso é que, para ele, Fila era todo cão de grande porte, pelo curto e de cor rajada (tigrada).

Contou-me o Jorge o seguinte fato. Certo dia, estando ele no recinto do Parque de Exposição Agro-Pecuária de Paranavaí (PR), mais especificamente na arena, assistindo a um rodeio, foi "entrevistado" por uma equipe de TV local. Foi, mais ou menos, o seguinte o diálogo travado entre o Jorge e o repórter:
Repórter: "Pelo que observo, o senhor gosta de rodeios e coisas do campo, não é mesmo?".
Jorge: "É claro que gosto! Gosto muito, porque eu sempre morei na roça!".

Repórter: "Que raças de cavalos o senhor prefere?"
Jorge: "Ah..... gosto do Mangalarga, do "Ingreis", do "Quarto de Roça"...
Repórter: "E das raças de bovinos, de quais o senhor gostas"
Jorge: "Gosto do "Nelói", do "Giro", do "Gruzerá", do Indubrasí"...
Repórter: "... E de Zebu?
Jorge: (fechando a carranca, conforme fez questão de enfatizar para mim, respondeu): "Não sinhô! De Zebu.... Não gosto, não Sinhô"!!!

Com isso, sentindo-se contrariado, deu por terminada a entrevista ....


Agenor Gracindo de Oliveira.

t;E das raças de bovinos, de quais o senhor gostas"
Jorge: "Gosto do "Nelói", do "Giro", do "Gruzerá", do Indubrasí"...
Repórter: "... E de Zebu?
Jorge: (fechando a carranca, conforme fez questão de enfatizar para mim, respondeu): "Não sinhô! De Zebu.... Não gosto, não Sinhô"!!!

Com isso, sentindo-se contrariado, deu por terminada a entrevista ....


Agenor Gracindo de Oliveira.