O que Você Precisa Saber Sobre: Caráter,
Temperamento e Sistema Nervoso

Paulo Santos Cruz


O leitor Carlos Alberto Barroso Pereira, nos indaga sobre: 1º) o caráter; 2º) o temperamento; 3º) o sistema nervoso do Fila.

Outros perguntam as razões de seus cães serem criticados, acusados de terem nervos e temperamento fracos, apesar de haverem atacado “energicamente” durante uma prova.

O tema é apaixonante e, para nós, absolutamente prioritário. Incluído entre as raças de “Guarda e Utilidade”, o Fila deve “guardar”e ser “útil”. Sem esses predicados, vale tento quanto uma geladeira que não gela; ou um rádio que não toca. Ou seja, é apenas um peso oneroso, como tudo quanto é inútil.

DEFINIÇÕES

É difícil, mas tentaremos definir, liminarmente “caráter”. É um complexo de qualidades, de modos de ser, inerentes a raça; entre os quais identificamos: índole, capacidade afetiva, capacidade volitiva, estabilidade, firmeza, feitio moral, psiquismo, etc.

“Temperamento” pode ser definido como modo do indivíduo reagir a um estímulo externo. É um conjunto, composto por coragem, destemor e até temeridade; agressividade, instinto de defesa, de proteção. Embora acionado por estímulos externos, sua manifestação é orientada também pela afeição, amizade, como causas determinantes do dever, da dedicação, do sacrifício.

“Sistema nervoso” é algo físico, independe da vontade; e determina e regula a emocionalidade. Repito: estou apenas tentando definir algo subjetivo, ideal. Como tudo, nesse terreno, é difícil, complexo, sofisticado.

Talvez exemplos esclareçam mais: um chihuahua, ataca um Fila, que se afasta dignamente, sequer roncando. Tem bom caráter, não se prevalece de sua força; mostra boa índole. Uma onça devora os filhotes de uma Fila. A cadela a persegue, por dezenas de quilômetros, sem alimento, sem descanso, exibindo firmeza, pertinácia, determinação. Este seu caráter. Fosse uma fraca ficaria choramingando.

Ele adora o dono, logo o defende. Simulamos uma agressão ao dono, utilizando vara ou apenas gestos. Ele reage, revida, defendendo quem ele ama e por quem sente afeição. Quanto maior sua estima, mais enérgico o revide. Este seu temperamento.

Levando para um lugar estranho – o recinto de uma exposição – ameaçado por outros cães, gente que corre, gente que grita, etc..., tudo isso o emociona, sente-se em perigo e vê seu dono querido também ameaçado, principalmente se este também é nervoso e lhe transmite esse nervosismo. Um estampido funciona como última gota. É o teste do seu sistema nervoso.

Não há fronteiras nítidas entre os três: um influi no outro. Um bom caráter determina maior capacidade de afeição, temperamento mais forte, revide mais violento etc... Um sistema nervoso hiper-sensível, impede manifestações de um temperamento razoável, conduzindo até a covardia.

OS INDICADORES

Numa exposição, os rápidos momentos de exames dos cães não permitem percepção completa de sua mente e do seu psiquismo. Por isso a observação começa desde a entrada na pista. Os de bom sistema nervoso mostram segurança, auto-confiança. Seu olhar revela determinação, valentia, controle, serenidade. A cauda confirma este estado de espírito. O avanço num expositor ou num cão que se aproximaram demais mostram bom temperamento. Já está defendendo o dono e a si mesmo.

Olhar apreensivo, orelhas para trás, cauda baixa ou mesmo entre as pernas, recusa em voltar a garupa para o cão que vem atrás denunciam medo, sistema nervoso fraco.

O relacionamento com o apresentante fornece preciosas indicações. O cão de bons nervos e temperamento vai à frente do apresentante, que se esforça para contê-lo. O medroso segue o apresentante, vai puxado, precisa ser animado, estimulado, para acompanhá-lo.

Uma vez todos na pista, o cão bom despreza os outros cães... desde de que mantenham a distância. Procura agredir as pessoas que se aproximem demais.

O juiz sagaz coloca-se no centro da pista e com voz alta e gestos largos, pede aos expositores que façam um circulo em movimento. Objetivo: chamar a atenção dos cães e, também, começar a examiná-los.

Os bons de temperamento não mais desviam os olhos do juiz. Seu olhar é firme, sereno, altivo, denuncia sua vontade de vir e medir forças com esse indivíduo que, para ele, cão, já se destacou dos demais, nesse recinto onde desconfia de todos. E é o que faria se fosse solto.

Os de nervos e temperamento fracos começam a puxar o apresentante para fora do circulo. Seus olhos, orelhas e cauda continuam confessando seu desejo maior: fugir dali, daquele ambiente tão ameaçador. E é que fariam se soltos.

OS QUE ENGANAM

Alguns enganam. Rosnam, latem, mas sempre... contra os outros cães. Temendo-os, procuram amedrontá-los, ameaçando-os. Com esse procedimento desejam evitar que se aproximem e o agridam. São, mal comparando, como aqueles psudo-valentões que, depois da briga apartada, ameaçam, defendem e vociferam os clássico chavões: “me larga, me deixa, eu mato, eu esfolo, etc...”.

Nas brigas de cães TOSA, no Japão, o que rosnar, antes de iniciada a peleja, perde pontos, pois mostrou temer o adversário, por isso procurou amedrontá-lo... para impedir sua aproximação.

Esse procedimento é mais comum nas cadelas.

Se o juiz demorar o julgamento individual, os bons sentam, calmamente, e até cochilam, tal sus autoconfiança. Sua atitude significa: “deixem-me descansar um pouco. Se vier algum ou alguém... eu traço.

O LIMIAR

O sistema nervoso é testado com um barulho súbito e inusitado. Geralmente utiliza-se de um revolver de brinquedo, de espoleta. Pela observação inicial, o juiz já sabe, mais ou menos, quais vão sentir emoção tão grande a ponto de se descontrolarem.

Para facilitar a compreensão, imaginem ser o sistema nervoso algo vertical ou ereto, como um bastão. Imaginem que a emoção faz esse bastão vibrar, de baixo para cima. Imagine que determinado ponto não pode ser atingido pela vibração, sob pena de pânico ou descontrole total. Esse ponto, em medicina, chama-se “limiar”.

Aqueles cães que se descontrolam, em puro pânico nervoso, por um simples estampido de um revolver de brinquedo, têm limiar baixo. Evidentemente, como guardas ou cães de utilidade são inteiramente inúteis. Alguns chegam a urinar, o que realmente é demais diante de um simples traque de brinquedo.

Sendo o limiar algo físico, trata-se evidentemente de uma deficiência certamente transmissível. Portanto, cães de limiar baixo não devem ser utilizados na reprodução, salvo casos especialíssimos para obtenção de alguma característica por ele possuída, difícil de encontrar em outros. Mas, mesmo assim com orientação técnica e grande cautela.

O temperamento é testado com ataque com uma vara ou qualquer objeto. Objetiva fazer crer, ao cão, que desejamos agredir seu dono e ele próprio também.

Um cão de bom temperamento reage imediatamente, revidando. Afinal, a defesa do seu dono é seu dever.

Os de bom temperamento avançam até onde a guia permite, saltando em diagonal, para atingir o “agressor”. Chegam a ficar sobre os pés traseiros, virtualmente de pé.

Os menos bons avançam, mantendo-se porém com os quatro pés no chão. Não saltam em diagonal. Morderiam o “agressor” dos joelhos para baixo, se o atingissem. Mas exporiam o crânio, nuca e coluna às pancadas do “agressor”.

Os inferiores ficam ao lado do dono, sapateando e latindo... mas não avançam.

A REAÇÃO DOS ADESTRADOS

Finalmente há os adestrados. O próprio dono os denuncia, dando-lhe os comandos, mandando-os atacar e incentivando-os. Alguns donos chegam a fingir correr, em direção ao “agressor”, para ver se o cão, animado por exemplo, finalmente arremete.

Os cães também denunciam o adestramento: avançam até o fim da guia, latindo, e depois voltam para o dono, de cauda abanando, felizes, em busca do prêmio costumeiro: em afago, alguns carinhos. Aí o dono lhes dá novamente o comando e novamente eles correm até o fim da guia, para retornarem buscando um novo afago.

Alguns chegam a dar as costas ao “agressor”, pedindo o prêmio ao dono. Imaginem se a agressão fosse verdadeira!

Quando o Fila é de bom temperamento, seu dono nem lembra de mandar adestrá-lo, o primeiro a ser mordido seria o instrutor. O dono só tem a iniciativa de providenciar-lhe umas aulas após notá-lo de temperamento fraco. Então paga para alguém ensinar o cão a fingir de bravo. Realmente o cão aprende a fingir, mas bravo, intimamente valente, ele jamais será, pois não está em sua índole, em seu temperamento, reagir com violência.

O cão adestrado procura morder a vara, e não o “agressor”. Teste definitivo: entregar-lhe a vara; ele a morderá ou procurará quebrá-la. Alguns chegam a levá-la pare a o dono, felizes, realizados... Todos esquecem o “agressor”.

Os de bom temperamento, nem olha para a vara que lhe atiraram aos pés, prosseguem tentando alcançar o “agressor”. E, mesmo depois do julgamento, já fora da pista, já amarrado a uma árvore à espera do final da exposição, o bom cão ainda fica olhando o juiz, ou seja, o “agressor”, acompanhando-o, na esperança de ter uma chancezinha de experimentar-lhe as carnes.

O PROBLEMA GENÉTICO

Como todo fator adquirido, o adestramento não é transmissível. O cão é adestrado, mas seus gens, suas células germinativas, seus óvulos, esses jamais serão adestrados. O cão finge de bravo, representa ensinamentos, mas seus filhos nasceram de nervos tão fracos como os do pai, ou da mãe.

Única solução: corrigir essa falha na geração seguinte, através de acasalamentos planejados, quando, por ser aquele exemplar portador de muitas outras qualidades, convier fazê-lo reproduzir. Todavia, se o que ele tem a dar possa ser obtido de outra fonte, o melhor é deixá-lo viver feliz até seus últimos dias. Exemplifico: suponham uma fêmea, de excelente estrutura, ótimo caráter, magnífico temperamento, mas de nervos fracos. Acasalando-a com um macho de nervos irreprocháveis, na tentativa de obter a estrutura materna e os nervos paternos, o fato fica perfeitamente justificável.

Exemplifiquei com uma fêmea, pois é mais comuns serem os exemplares de limiar baixo desse sexo. Todavia, se descender de cães de bons nervos, quase certamente não prejudicará a participação do conjugue de bons nervos, ao contrário, seus gens colaborarão com os do macho. Seu caso pode ser apenas hormonal. Já um macho de nervos fracos representa defeitos muito grave, pois não tem a amenizá-lo sensibilidade feminina.

O TESTE DO OLHO

Quando se testa o temperamento, procura-se a posição que permite ao sol incidir sobre os olhos do cão. Os de temperamento forte ficam de tal modo enraivecidos contra quem ousou ameaçar seu dono que seu sistema nervoso vago-simpático não mais comanda certas ações involuntárias. Uma delas é do diafragma da pupila, que deve fechá-la ou abri-la conforme a quantidade de luz. Incidindo o sol nos olhos do cão, sua pupila devia fechar, mas descontrolado, o vago-simpático não mais fecha, abandona-a, deixa-a abrir em sua totalidade. Vê-se então, a pupila imensamente dilatada, permitindo a entrada do sol até o fundo olho, onde a pigmentação é feita pelo gene cromopoiético, utilizando elementos fornecidos principalmente pela medula espinhal (nervo tronco). Se o nervo tronco falhou, não fornecendo elementos pigmentadores, então todo o sistema nervoso, ou seja, os nervos secundários, também estarão prejudicados.

Quando a pigmentação é boa, pode-se concluir que a medula funcionou bem; logo, todos os ramais nervosos também funcionam bem. Pigmentado, o fundo do olho reflete a luz do sol, em reflexos verdes ou azuis. O juiz facilmente constata essa cor nos reflexos que vem do fundo do olho. Se tiver juízo não chegará perto desse cão, que se o alcançar o morderá deveras.

Todavia, se a pupila fechar, isto significa que o cão nada sente quando seu dono é agredido ou pelo menos ameaçado. Péssimos caráter e temperamento.

Em alguns acasos a pupila dilata, ou seja, ocorre o descontrole do vago-simpático, mas por medo, por pânico. No fundo do olho, não havendo pigmentação, os reflexos provocados pelo sol serão vermelhos ou amarelos, por refletirem a cor das veias capilares do fundo do olho, ou seja do sangue que nelas circula. Não há pigmentação, o nervo tronco não funcionou, todos os ramais nervosos são prejudicados. O juiz assim pode estar certo de ter esse cão apenas medo, o que será confirmado pelo restante do seu comportamento. Se o juiz avançar ele recuará, até esconder-se atrás do dono.

Como constatam os leitores, muitas vezes justamente o ataque de um cão é que lhe denuncia a fraqueza do temperamento. Por isso, embora atacando, o faz de tal maneira que autoriza o juiz a fazer constar, da súmula de julgamento, o defeito de temperamento fraco.

Repito, já agora fazendo um apelo aos criadores: não usem machos de nervos fracos. É defeito transmissível. Só usem fêmeas, em casos especialíssimos e assistidos por um técnico. Não aumentem o número de medrosos.

Não mandem adestrar seus cães para atacar. Se não herdaram temperamento corajoso, destemido, de guarda, não enganem a si próprios, ensinando-os a ludibriá-los. Num momento de real necessidade, seu cão adestrado, em vez de defendê-lo pode saltar no seu colo, pedindo sua proteção, ou então fugir para o fundo do quintal, deixando você enfrentar sozinho, o malfeitor. Criem verdadeiros amigos e guardas, e ajudem-nos a reerguer a raça Fila.


O Fila - Boletim mensal do CAFIB, ano 2, nº 17 – abril de 1980

 

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O Fila - Boletim mensal do CAFIB, ano 2, nº 17 – abril de 1980