O Temperamento (Socrático) do Fila
Paulo Santos Cruz
Certos genes, como
já vimos em artigo anterior, funcionam sempre em conjunto. Formam os
chamados “grupos de vinculação”.
Em genética canina, é interessante observar, nesses “grupos de vinculação”, ao lados dos genes somáticos, a presença indefectível de outros relacionados com o sistema nervoso e comportamento – ou seja, genes do soma e genes da mente.
Os terriers, por exemplo, têm cabeça lupóide, olhos redondos, figura quadrada, pés de gato, dorso curto e reto, cauda de inserção alta; ombros, joelhos e jarretes pouco angulados; e (agora os genes da mente) temperamento fogoso, valente, destemido, determinado; a curiosidade, energia nervosa e a inteligência características. Virtualmente existem, em cada raça terriers, vários grupos de vinculação.
O mesmo pode se dizer do Fila raça da família molossóide. Raça tronco, ou origem primária: os cães nativos da Molóssia, província grega, ao Norte do golfo da Ambrácia, região do Épiro. Esses cães acompanharam os exércitos gregos em suas campanhas pela Europa. Lutavam ao lado dos soldados, arremetendo contra os adversários, com o mesmo entusiasmo dos enfantes. Seu ataque era desferido em diagonal ascendente, atingindo o adversário da cintura para cima.
O temperamento do Fila puro é ainda o mesmo desses seus longínquos antepassados, como se pode constatar comparando o que os molossos disseram seus contemporâneos com o comportamento dos Filas puros atuais.
Sócrates, filósofo daquelas remotas eras, pois nasceu no ano 469 e morreu no ano 399... antes de Cristo, foi um dos poucos a interessar-se pelo temperamento dos molossos. Convém lembrar que os biógrafos de Sócrates o consideraram e consideram (vide Manoel Valvé e Adonias Filho) “o mais inteligente dos homens”. Realmente Sócrates teve discípulos do porte intelectual de Platão, que reuniu os ensinos do mestre, sobre os mais variados temas, inclusive o do temperamento do cão de guarda, detalhado pelo filósofo num dos seus debates com Glaucon, outro filósofo grego, no diálogo que a Editora Tecnoprint S. A. publica à página 75 do livro “A República”, sob o título “A seleção dos guardiões”:
Sócrates: “Não
te parece que um rapaz de nobre linhagem se assemelha muito a um cão
de guarda (...).
(...) ambos devem ser vivos para se aperceber das coisas, velozes para correr
no encalço do que vêem e também vigorosos para o caso de
que tenham de lutar depois de havê-lo alcançado”.
Glaucon: “Decerto, todas essas qualidades lhe são necessárias”.
S: “Ademais, hão de ser valentes, se queremos que lutem bem”.
G: “Pois claro”.
S: “Mas poderá acaso ser valente sem ser impetuoso? Não tens observado que a impetuosidade é uma força invencível e irresistível, e com essa qualidade torna uma alma absolutamente intrépida e indomável diante de qualquer perigo?”
G: “Tenho observado, sim”.
S: “Então fazemos,
agora, uma idéia clara das qualidades corporais que deve possuir o guardião.
E, também, no que toca à alma, precisa ter, ao menos, impetuosidade.
Mas, sendo tal sua natureza, oh! Glaucon, como impedir que se mostrem ferozes
uns com os outros e com o resto dos cidadãos?”
G: “Por Zeus, não é nada fácil”.
S: “Pois é necessário que sejam afáveis para com os seus e perigosos em face do inimigo. Onde encontraremos um temperamento afável e impetuosos ao mesmo tempo? Não será bom guardião aquele a quem faltar qualquer dessas duas qualidades. Essa combinação pode ser observada nos cães. Deves ter observado que os cães de guarda têm, como tendência inata, a de serem perfeitamente mansos para com as pessoas da família e os seus conhecidos, enquanto com os estranhos sucede o contrário. Impetuosos e filósofos por natureza”.
G: “Não entendo”.
S: “A característica de que falo pode ser observada no cão, coisa por certo digna de admiração num animal”.
G: “Qual característica?”
S: “A de se enfurecerem ao ver um desconhecido, e fazer festas às pessoas que conhecem, ainda que o primeiro nunca tenha lhe feito mal algum e as segundas nenhum bem. Não te parece estranho isso?”
G: Nunca havia reparado tal coisa, mas não há dúvida de que assim se comportam”.
S: E esse é um traço encantador de sua natureza, a mostrar que o cão de guarda é um verdadeiro filósofo. Distingue a figura do inimigo da do amigo pelo simples critério de conhecê-la ou não conhecê-la... ”.
Sócrates, em sua genialidade – e só um gênio podia, naquela época, observar e analisar, com tanta exatidão, o temperamento dos cães de guarda e suas qualidades componentes: vigor, valentia, impetuosidade, intrepidez; afabilidade, mansidão para os conhecidos, ferocidade para os desconhecidos.
“Não será bom guardião aquele a quem faltar qualquer dessas qualidades... “ – concluiu o filósofo, aduzindo: “mas devem ser velozes para correr no encalço do que vêem...”
Cabe a pergunta: qual a diferença entre os Molossos, de 4 séculos antes de Cristo e o molossóide Fila Brasileiro, de 20 séculos depois de Cristo? Estaria Sócrates descrevendo o Molosso ou o Fila? Qual o milagre genético que preservou, através de tantos séculos, aquele temperamento?
Esta força genética dá-nos não só a esperança, mas a certeza de podermos purificar novamente o Fila, devolvendo-lhe essas qualidades herdadas e exibidas até recentemente.
De nada adiantará terem-lhe adicionado a massa física dos Mastins Napolitano ou inglês, produzindo não mais Filas “velozes para correr no encalço do que vêem...”, e sim paquidermes apáticos e indiferentes; ou terem-no advogado, vestindo-o com um corpo longilíneo, negro azeviche e pernalta. O Fila certamente sacudirá do seu corpo e das suas células germinativas essas deficiências, recompondo aquelas qualidades avoengas.
Alguns criadores de mestiços insinuam que o temperamento – digamos socrático – do fila puro teria sido fixado por mim. Respondo-lhe argumentando com a impossibilidade de fixá-lo se não o tivesse já encontrado. Impossível fixar o inexistente. Em verdade apenas usei o Fila como ele era e é, quando puro, e como o encontrei e ainda encontro, procurando reproduzi-lo sem alterações. Sócrates veio dar-me razão: eu não poderia fixar o que já estava há 24 séculos.
Minha primeira Fila, Lupe, chegou em casa por volta do almoço. Passamos a tarde tirando-lhe os 64 bernes (não é força de expressão, eram efetivamente 64, de todos os tamanhos), ou seja, tivemos de causar-lhe dores e aborrecimentos, horas seguidas. Lupe entre três e quatros meses e os indeléveis de umas 20 gerações de carências alimentares. À noitinha, deitou-se junto a nós, no alpendre. Lá pelas 8 horas da noite uma vizinha veio nos visitar. Lupe investiu, com todo seu ímpeto socrático, impedindo-lhe a entrada. Meio dia de convivência conosco fora suficiente para mostrar o “traço encantador de sua natureza”... “que o cão é um verdadeiro filósofo. Distingui a figura do inimigo da do amigo pelo simples critério de conhecê-la ou não conhecê-la...”; “ ...perfeitamente mansos para com as pessoas da família... enquanto com os estranhos sucede o contrário... “.
Assim Sócrates e seus contemporâneos conheceram o Molosso, raça tronco de todas as raças molossóides de cães de guarda. Da Grécia foi trazido para a Europa, onde caldeou com quantas raças regionais então havia. Da Europa transladaram-no para a América, ele ou já alguma raça nele baseada. Aqui terá sofrido outras diluições, alteradoras do seu físico; mas seu temperamento manteve-se puro, imaculado, de autêntico molosso, de perfeito guardião.
Acasalando-o com outras raças, os misturadores obtiveram, não mais o Fila, e sim cães já xistosamente chamados de “mastifilados”, “napofila”, “dogofila” ou “filamarquês”. Estes mestiços sofreram diluição do temperamento e do sistema nervoso, deixando de ser autênticos guardiões. Os misturadores não hesitaram; pleitearam e conseguiram a alteração do padrão rácico, que não mais autoriza, expressamente, o fila a atacar o juiz se este, afinal um estranho, um desconhecido, o tocar.
Procurando, em São
Paulo, um filhote para um amigo gaúcho, fui a um canil onde me exibiram
um “mastifilado” de uns 11 meses. Amarelo, gigantesco, latindo grosso.
Preocupado com os seus olhos, semi-cerrados, aproximei-me, fitando-os. O “bichão”parou
de latir, ficou tenso, e acabou fugindo para seu dormitório, de onde
latiu assustado. Lastimei esta fraqueza de temperamento, e a dona, tentando
corrigir a situação, e sem saber quem eu era, justificou-o:
“Agora produzimos cães sociáveis, capazes de conviver com
as pessoas, e não mais aqueles assassinos que criavam lá em Santos”.
Pela idade da jovem senhora e pelo nome – para mim desconhecido – de seu canil, facilmente concluí ter ela sofrido uma lavagem cerebral dos mestiçadores. Ela repetia o que lhe haviam ensinado: idéias novas, apropriadas a uma situação nova, e a um cão novo... que não era mais o Fila. Este cumpria, denegrí-lo, arredá-lo, pela calúnia e pelo temor. Daí a referência ao “assassino de Santos”.
Ao que eu sabia, nunca um Fila Parnapuan assassinou alguém. Mas nunca um malfeitor ou um invasor conseguiu sair incólume de uma casa entregue à guarda de uma Fila nascido de um canil Parnapuan. Saíram, mas com a maior dor de cabeça (e de outras partes do corpo) de todas as suas vidas, pois todo Parnapuan era e é Fila puro, e todo Fila puro é, filosoficamente, socrático.
Um outro mestiçadpr, em escrito enviado a uma revista cinófila, pretendeu justificar seus cães, que, nas exposições, fugiam na prova de ataque. Para ele, as provas de ataque e defesa, nas exposições, compunham demasias de uma época que deveria ser encerrada e – dizia ele – na qual os cães eram criados como feras. Citava, então, como exemplo, o caso do “Dr. Paulo Santos Cruz, que a um amigo confiara o seu temor de entrar em sua própria casa com os cães soltos! O Dr. Paulo telefona para prenderem os cães, e só então ele tem coragem de entrar em casa”. O pessoal da revista conhecia-me e aos meus cães, e recusou o escrito.
Em verdade, os meus Filas, como todos os cães realmente de guarda, são ciumentos, e muito ciumentos. Quando viajo, demorando dois ou três dias fora, eles sentem minha falta; procuram-me pela casa; choramingam pelos cantos, alguns deixam de comer. Quando finalmente eu chego, a alegria deles é incontrolável: correm, voltam correndo, saltam, e todos terminam à minha volta, levantando minhas mãos com o focinho. Nesse momento, se eu afagar um deles, os demais, enciumados, avançam sobre o infeliz.
Para evitar essas brigas,
que repetidamente marcavam minhas voltas, é que eu telefonava, pedindo
para prendê-los. Assim, eu podia ir ao canil de cada um deles, e distribuir
afagos individuais, sem maiores riscos para o afagado. Terminando o cerimonial,
podia soltá-los, pois minha volta já não era novidade,
e tudo entrava na rotina.
Se eles gostavam de mim, guardavam-me e tudo quanto era meu, inclusive os afagos.
Era sua maneira de retribuir, de comprovar seu temperamento socrático.
O Fila - Boletim Mensal do CAFIB, ano 1, nº 3 – fevereiro de 1979